Botswana, Foto T.Abritta, 2008

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Um estúdio fotográfico nas Gerais


         O Fotógrafo mineiro Francisco Augusto Alkmin (1886-1978), conhecido por Chichico Alkmin, montou na cidade de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, o primeiro estúdio fotográfico desta região.
         O estúdio funcionava no porão de sua casa no Beco João Pinto.  Os cenários fotográficos eram montados com requinte, atapetados e decorados com painéis pintados pelo próprio fotógrafo que trabalhava com uma câmara de fole usando negativos de vidro com 13 x 18 cm.
         Foi uma grande satisfação receber a notícia de que sua família preservou o rico acervo deste profissional, que foi acumulado durante vários anos, doando-o ao Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro. Este Instituto, que é uma Instituição de excelência em preservação e pesquisa fotográfica, realizará um trabalho completo de classificação e digitalização das centenas de negativos em frágeis placas de vidro, colocando este material ao alcance de todos os pesquisadores interessados.
         Este fato me remeteu à fotografia que ilustra a capa do meu último livro intitulado Jequitinhonha (ver Fig. 1 e Fig. 2).
A fotografia usada na capa do livro, tirada em 1945, foi provavelmente feita no estúdio deste fotógrafo, pois podemos observar ao fundo um dos painéis que decoravam o cenário.
Em breve teremos não só o negativo desta imagem como os demais usados para este trabalho.
Curiosidades fotográficas...

 
Figura 1 - Fotografia usada na capa do livro Jequitinhonha.  Diamantina, 1945.  Acervo Teócrito Abritta.
 
 
Figura 2 - Capa do livro Jequitinhonha.
 
 
 
 
 
 
 
 






terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Olhar Fotográfico


         ...de qualquer maneira seria uma imagem maravilhosa, não só pela cena em si, como também pela presença marcante da atriz italiana Maria-Gracia Cucinotta, nesta foto de Ferdinando Scianna, clicada em Puglia Martinafranca, 1995 (Ver abaixo).  
Mas aqui o ponto focal foi o olhar da modelo que trouxe um charme e sensualismo todo especial, levando o observador a voos de imaginação, tentando ler pensamentos e emoções naqueles expressivos olhos negros.


Atriz italiana Maria-Gracia Cucinotta.  Foto Ferdinando Scianna.  
Puglia Martinafranca, 1995.



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os Teus Papéis

Comentário, em forma de acrósticos, gentilmente enviado pelo meu amigo Heitor Churchill, após a leitura do meu livro "Os Meus Papéis":


Caro Teócrito
                  Teus papéis
                  Escritos,
                  Onde encontramos
                  Com muita clareza
                  Recordações vividas,
                  Ilustradas por fotos,
                  Têm a prosa clara, concisa,
                  Onde nos deleitamos.
                  Ao ler página por página,
                  Bem distinguimos o escritor e fotógrafo
                  Recordando suas passagens pela vida,
                  Iluminadas de sabedoria.
                  Teus papéis,
                  Teócrito, possuem estilo moderno:
                  Arte de poesia em prosa!

Heitor Churchill, agosto de 2016.

Ode ao Jardim



Inglês japonês tropical
de Glaziou ou Burle Marx.

Jardim de dona-de-casa.

Tal matinha, plantas espetadas ao léu
titiladas sob o céu

neste encantado quintal
a jardineira em seu avental.

Aqui, marias-sem-vergonha
trepadas em pauzinhos molhados.
Ali, paus-d`água a perfumar.
Lá, damas-da-noite a inebriar
desejos a desejar.

Ah, quem dera este jardim visitar
sentir a maciez das pétalas
as carnes das suculentas.

Sentir a simplicidade
cores sabores
perfume da terra molhada.

Jardim de dona-de-casa.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Negra Gata


no telhado
repousa no beiral

negros cabelos
sedosa veludosa

brilho no olhar
fenda a decifrar


Foto T.Abritta.


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Velocidade e Lentes



“É tanta rapidez que até deixa um vento para trás.
Na fotografia aparece só o rabo do cavalo.”
Caio, 5 anos, agosto de 2014.

          Esses comentários, usados como epígrafe dessa crônica, ilustram a dificuldade de “captar” movimentos, como fotografar uma corrida de cavalos no Jockey Club do Rio de Janeiro.  Hoje com a velocidade dos filmes da chamada fotografia química ou dos sistemas digitais, até na fotografia amadora pode-se congelar facilmente cenas de movimento.

          No passado, mesmo usando-se filmes de alta sensibilidade, obter fotos como a mostrada na Figura 1, não era trivial.  O fotógrafo tinha que incluir na cena, tanto os jogadores como a bola.  Era como usar uma arma de um tiro só, pois não havia tempo hábil de mover o filme para o próximo quadro.  Na década de 40, na câmara Leica, por exemplo, o transporte do filme era feito por enroscamento e não por alavanca como nos modelos posteriores deste equipamento – M2 e M3.

          Nas câmaras fotográficas atuais, a captura de imagens, como a mostrada na Figura 1, são facilitadas pelos sistemas de disparo automático com a obtenção de vários fotogramas em frações de segundos.


Figura 1 - A Bicicleta de Pelé.  Foto Alberto Ferreira, 1965.

          Outro avanço que contribuiu para estas facilidades foi o aperfeiçoamento no cálculo e fabricação de lentes. 
          As primeiras lentes eram polidas manualmente, o que demandava muito tempo, e as objetivas calculadas com o uso de tabelas de logaritmos.           Para projetar uma objetiva, como a mostrada na figura abaixo, levava-se muitos dias, resultando em uma pilha de quase meio metro de cadernetas com fórmulas, números e desenhos (*).  Somente no início dos anos 60 foram calculados os primeiros sistemas ópticos usando um computador IBM.



Figura 2 – Projeto de uma objetiva de 100 mm 
para a câmara de um Daguerreótipo, 1840.

          É interessante observar também, em face dos progressos relacionados à fotografia, que o primeiro registro escrito da tecnologia óptica vem da Bíblia.  Os primeiros espelhos eram feitos de placas de pedra polida e depois de placas polidas de cobre ou bronze e são descritos na antiguidade bíblica em Êxodo 38:8, onde se relata como Beseleel construiu um dos objetos do altar do santuário em Jerusalém: Fez uma bacia de bronze e a sua base com os espelhos das mulheres que serviam à entrada da Tenda de Reunião.

Nota:
(*) Eu tive a oportunidade de conhecer, na década de 80, uma pequena indústria óptica que funcionava no bairro da Penha, na cidade do Rio de Janeiro.  Fabricavam microscópios, diversos instrumentos científicos e balanças analíticas.  Tudo era projetado e calculado pelo proprietário (manualmente com o uso de tabelas de logarítmicos), que polia lentes, espelhos, bem como construía as partes mecânicas.  Este construtor óptico era tão criativo que nas “miras” das lentes oculares usava fios de teias de aranhas devido à regularidade microscópica nos seus diâmetros. 



Fotopintura



          A introdução de cores em fotografia sempre foi uma aspiração que acompanhou esta técnica.  Em 1869, pouco depois do aparecimento da fotografia, Niépce de Saint-Victor conseguiu produzir daguerreótipos com leve coloração.  Outros, como os franceses Louis Ducos du Haron e Charles Cros chegaram simultaneamente a resultados semelhantes na fotografia colorida.  Em 1907, surgiu o primeiro processo industrial na produção de fotografias em cores, o Autochrome Lumière (V.Fig.1).
          Em 1935 surge o Kodachrome e nos anos cinquenta a fotografia colorida se populariza com o Ektacolor.
          Entretanto, processos de fotopintura sempre acompanharam a técnica fotográfica com aplicação de tintas, geralmente guache em papel ou óleo para telas, que colorizavam uma base fotográfica em baixo contraste.
          Nas Figuras 2 e 3 apresentamos dois exemplos de fotopinturas.  Na primeira temos uma fotografia de baixa qualidade com a pintura dominando a imagem.  Na outra vemos um extremo, onde a fotografia é de alta qualidade, delicadamente colorizada em um trabalho artístico mais refinado. 


Figura 1 – Autochromes Lumière.


Figura 2 – Menina, 1926.  Acervo Teócrito Abritta.


Figura 3 – Menino, final do século dezenove.  Acervo Teócrito Abritta.






terça-feira, 25 de outubro de 2016

Inspiração Fotográfica


          Nesta crônica continuamos com nossas sinhazinhas de Recriação Fotográfica, destacando suas poses e os cenários como mostramos na Figura1 (a) e (b).
          Nosso fotógrafo explora cenas onde as modelos, com seus longos cabelos e vestidos, tal ninfas dos bosques, aparecem dentro de rios e diante de cachoeiras.  Com os longos tempos de exposição as águas ficam sedosas, dando uma moldura etérea para nossas super models
          Estes cenários não eram comuns para as fotos da época, ainda mais que as águas sugeriam a nudez de um banho na natureza.
          Qual teria sido a fonte de inspiração de nosso fotógrafo? 
          A fotografia nasceu, assim como as outras artes, sempre procurando inspiração em obras precedentes.  Inicialmente as imagens de modelos copiavam poses em obras clássicas, e fotógrafos de estúdios contratavam as mesmas modelos que posavam para pintores e escultores, reproduzindo cenas e gestos usados nestas artes.

          Nas Figuras 2 e 3 reproduzimos duas pinturas de Renoir, deixando para o leitor as comparações com nossas sinhazinhas.  Note a grande semelhança da pintura Jovem Banhista com a imagem da primeira de nossas modelos, e da Banhista Sentada com a segunda.

Figura 1. (a) Sinhazinha sentada no rio. (b) Sinhazinha e a cachoeira

          Coincidência ou não, nosso fotógrafo anônimo era um inovador, sempre carregando seus pesados equipamentos pelo campo, centrando a temática na beleza das jovens em meio à natureza, merecendo, portanto, tal comparação.


Figura 2. Jovem Banhista. (a) Pintura original.
 (b) Redução para escala de cinzas.

  
Figura 3. Banhista Sentada. (a) Pintura original. 
(b) Redução para escala de cinzas com espelhamento da imagem.



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Recriação Fotográfica


          Foi fascinante percorrer os salões daquela velha fazenda de café (Fazenda Boa Esperança, Belmiro Braga, MG).  O piso rangia com o andar, cada passo anunciado pelo ranger de madeiras roídas nas rodas do tempo.  Mais emocionante ainda, foi abrir velhos armários, tocar em documentos e objetos há tanto adormecidos.  A descoberta de imagens fotográficas, aprisionadas em mais de uma centena de negativos de vidro, foi como ressuscitar o passado, rostos, crianças, casamentos e toda a vida daquela família. 
          Emocionante volta no tempo.  Como seriam as cópias positivas daquelas imagens em negativo, onde o preto virava branco?

          Separei duas cópias digitalizadas, onde aparentemente duas das meninas apareciam separadas por aproximadamente uma década – final do século dezenove e início do século vinte (V. Figuras 1 e 2).


Figura 1 (negativo digitalizado)


Figura 2 (negativo digitalizado).

          A primeira imagem apresenta uma qualidade técnica mais pobre, e a segunda mostra a evolução do fotógrafo, com o crescimento das meninas acompanhando a qualidade das imagens, agora bem focalizadas e nítidas.
          Bastaria uma pequena operação digital, com a inversão da escala de cinzas, para saltar aos olhos as imagens reveladas. 
          Um olhar mais atento chama a atenção para o primeiro negativo, onde sua baixa qualidade era compensada com uma composição mais artística no posicionamento e gestos das pequenas modelos.  Não teria o fotógrafo dado, durante a revelação, uma tonalidade mais marcante, um sépia, por exemplo, facilmente obtido com os recursos químicos da época?
          Saindo daquele passado de imagens, reclinei-me na cadeira, tirei os olhos da tela do computador e deixei-os vagar por fotografias, mapas, estudos e gravuras na parede.  Com aquele Goeldi bem em frente (V. Figura 3), consegui avançar no tempo.  Uma reimpressão de chapa xilográfica original deste artista feita em 1970 por um de seus alunos.  Reimpressão muito criticada na época (*).  Hoje talvez não comprasse esta gravura.  Mas, por outro lado, as chapas originais foram doadas ao antigo museu do Banerj; com sua extinção, acabaram abandonadas num porão úmido no Museu Antônio Parreiras em Niterói. 
          Assim, quem sabe não teria nas minhas paredes um “artefato arqueológico” atestando o descaso com nossa Cultura?

Figura 3 – Gravura de Goeldi (reimpressão de 1970 usando uma chapa original).  Acervo Teócrito Abritta.

          Girei a cadeira e fiquei lendo lombadas de livros nas estantes ao meu redor.  Separei dois livros: Esse Ofício do Verso, de Jorge Luis Borges e A ReOperação do Texto de Haroldo de Campos. 
Não seria a revelação de um negativo semelhante a uma reimpressão xilográfica?  Ou será que a gravura pertence a um universo artístico, onde autorias devem ser respeitadas e a fotografia apenas uma técnica?  Muitas dúvidas, nenhuma resposta.
Relendo nestas obras alguns trechos sobre a recriação em traduções de poemas, anotei algumas palavras de Haroldo de Campos:

recriação
transcriação
reimaginação
transtextualização
transficcionalização
transluciferação

          Uma sonoridade que apontava caminhos para uma “transposição” e “recriação” na arte fotográfica.  Por que não?
          O resultado desse processo foi a lembrança dos Fotógrafos Pré-Rafaelistas, como Dante Gabriel Rossetti e Julia Margaret Cameron inspirando a primeira imagem, que de fato “pedia” o tom sépia usado por estes artistas (V. Figura 4). 


Figura 4 – Recriação Fotográfica na revelação do
negativo apresentado na Figura 1.

          O segundo negativo, apesar de sua qualidade técnica superior, foi revelado de uma maneira tradicional, sendo mais um documento visual das “sinhazinhas” de nossas antigas fazendas cafeeiras.  


Figura 5 – Revelação digital do negativo apresentado na Figura 2.

Nota:
(*) “Uma ocasião, Goeldi me pediu uma gravura que ele havia feito, pois queria tirar uma cópia e não estava conseguindo, depois de várias tentativas.  A gravura – O Tubarão – ele mesmo confessou que não conseguiu tirar uma cópia igual à original.  Agora, veja só, se o próprio artista tinha dificuldades para tirar várias cópias devido à maneira como trabalhava, tão especial, tão dele próprio, como é que podem ter validade cópias tiradas por aí depois da morte do autor?”
          Fragmento da entrevista com Marcelo Grassmann, concedida em 27 de julho de 1981, para os organizadores da exposição Oswaldo Goeldi no Solar Grandjean de Montigny – PUC/RJ.

Artigo publicado no livro digital: "Fotografia & Imagem: uma jornada poética" , de minha autoria. 








Técnicas Fotográficas


          Na composição de uma fotografia existem certos cuidados que podem tornar mais agradável sua leitura, já que normalmente ao olharmos a foto de uma paisagem, por exemplo, os elementos mais próximos ficam na parte de baixo da imagem, pois nosso olhar caminha destes detalhes próximos até o horizonte.  Outro aspecto importante é que no mundo ocidental a leitura é feita da esquerda para a direita. 
          Assim uma linha imaginária na fotografia, traçada do canto inferior esquerdo até o superior direito guia o nosso olhar pela imagem, ou seja, do que está perto até o longe e da esquerda para a direita.
          Na foto abaixo esta linha é marcada pela cor vermelha do sapato e vestido de uma das modelos involuntárias – que me perdoem pela apropriação de suas graciosas imagens –  e pelo vermelho de uma rosa.  Notem que a roseira ficou em um primeiro plano de modo a parecer maior e colorir fortemente a imagem com sua cor.


Foto T.Abritta, Paris, 2014.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Jequitinhonha



Aguardem para breve, Jequitinhonha.  Histórias de um Promotor contra as injustiças e violência em um Arraial no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, entre os anos 1939 e 1946.
Reconstituição rigorosa do espírito e linguajar da época.

“Como é belo um livro que foi pensado para ser tomado nas mãos, na cama, até num barco ou onde não existem tomadas elétricas.  Até onde e quando qualquer bateria se descarregou.  Suporta marcadores e cantos dobrados, pode ser derrubado no chão, abandonado sobre o peito ou joelhos quando caímos no sono”.
De A memória vegetal e outros escritos sobre bibliofilia.
Humberto Eco, 2010.



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nas Alturas de Itatiaia

          Inicio o ano de 2010 diante das Montanhas de Itatiaia, parte alta do parque.
          Silêncio total.  A paisagem vazia leva-nos à introspecção.  Escaladores de alturas não são vistos – tempos chuvosos, pedras escorregadias.  Nem outras pessoas por aqui passeiam – caminhos pedregosos. 
          Chegando à Garganta do Registro; na parte mais alta do caminho para Itamonte, a quase mil e oitocentos metros de altura, entra-se no parque.  O jipe, mesmo com tração nas quatro rodas, salta, trepida e resvala no que, há muito, foi estrada.  Hoje, amontoado de pedras soltas, entulhadas ao acaso.  Caminho quase inexistente.  Apenas traços do rumo abandonado pelo homem.  A Natureza torna-se mais presente com o verde tentando cobrir o negrume dos sucessivos incêndios florestais e telhados abandonados nas ruínas das velhas construções.
          Após alguns quilômetros continuamos a pé.  Mas a caminhada foi breve.  As pernas já não são as mesmas de ontem.
          Esmagado entre o azul do céu e a aspereza das pedras, pensava: conheci os sete continentes.  Florestas, desertos, geleiras, savanas e vulcões.  Rios, lagos, oceanos.  Mas não chegarei mais às alturas de Itatiaia.  Ao longe fico a contemplar.  Passadas quatro décadas, apenas aqui cheguei.  Suas chaminés já venci.  Suas alturas já subi.  Suas rochas já senti.  O céu quase toquei.  Entre suas nuvens andei. 
          Tão longe repousa agora o Pico das Agulhas Negras.  Tão distante a Serra das Prateleiras com chaminés, paredões e vistas das regiões de Itatiaia e Resende dobrando-se no horizonte distante.  As gigantescas rochas com formas singulares, como a Pedra da Tartaruga, apenas no fundo da memória passada. 
          Sinto não ter caminhado por outras alturas.  Lá em cima ficaram os Himalaias, as neves do Kilimanjaro.  O Aconcágua derretendo-se ao sol.
          Até o Pico da Bandeira – ah, que esforço para chegar lá – deixou de ser nosso ponto culminante.  Até então perdido na imensidão Amazônica, descobriu-se o novo teto do Brasil, o Pico da Neblina, onde jamais pisarei.  Pouco mais ao norte, o Monte Roraima, agora para mim apenas a montanha que inspirou o Mundo Perdido de Conan Doyle. 

            Agora estão as montanhas estendidas
como cavalos azuis adormecidos.

          No silêncio, descanso para o penoso retorno.  Um calango atrai o olhar, mostrando caminhos a explorar.  Vidas humanas individuais são finitas.  A grandeza da Natureza é que traz sentimentos de eternidade. 
Agora, o pequeno réptil caminha sobre fungos, atravessa “florestas” de flores silvestres, sumindo no mimetismo e riqueza dos campos de altitude com suas folhas e pétalas refletindo infinitas cores de luz. 
Muito a explorar.  A descobrir. 
Alegro-me.  No fundo, aqui estou apenas para despedidas.  Aceno ao longe, muito longe, nesta jornada sentimental. 
          Tomarei outros rumos.  Seguirei o calango. 

            No horizonte, o céu é meditativo e suave;
            Parece que repousando no limite do tempo,

seus corações se reconciliaram.  

Foto T.Abritta.

Nota:
Fragmentos intertextuais da poesia Montanhas Ao Meio-Dia, de Charles Edward Eaton, traduzida por Jorge de Lima.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Escrevendo Errado em Páginas Certas.


A Constituição dos Estados Unidos, por exemplo, tem apenas os princípios fundamentais de uma Democracia escritos em  uma única página.  A brasileira, mistura estes princípios fundamentais com os secundários.  Por exemplo, a transparência, igualdade de direitos, liberdade de opinião e outros, deveriam, quando ameaçados, ser mais importantes do que o foro privilegiado, que existe unicamente para garantir estes princípios fundamentais.  Mas o STF não pensa assim na sua interpretação constitucional.  Sempre atua como uma corte de defesa do "sistema" e do Poder, e não para garantir o interesse social.  Assim, simplesmente, nos últimos 20 anos deixaram prescrever uns 500 processos e atualmente já acumulam quase 200 outros na vergonhosa fila da prescrição.
Na prática esta Corte funciona apenas como uma repartição para carimbar certificados de ficha limpa para corruptos.

Como curiosidade, em 2014 uma das capas da revista Rolling Stone apresentou a atriz Julia Louis-Dreyfus mostrando a Constituição dos Estados Unidos escrita em suas costas (ver figuras e link abaixo).
Se fosse a Constituição da República Federativa do Brasil, nem que escrevesse-mos também em seu "derrière", descendo pelas pernas, isto seria possível, mesmo não faltando escribas para esta árdua  tarefa.






terça-feira, 20 de setembro de 2016

Colossos de Menon


          Na Grécia Clássica os mortos eram sepultados de uma forma ritual, criando-se uma réplica do falecido na forma de um corpo insubstancial chamado Êidolon.  Para aqueles que morriam longe da pátria, dos parentes ou quando o corpo não era encontrado, construía-se um túmulo vazio com uma estátua ao lado, o Kolossós.  Este Colosso, como o próprio morto, é um duplo do vivo, atraindo a Psiquwe vagante transformando o morto em Êidolon.


Figura 1 - Estátuas representando Amenófis III (1417-1379 AC) - Tebas, Egito.  Os gregos da antiguidade clássica diziam ser um Kolossós do mítico rei Menon, desaparecido na Guerra de Troia e até hoje estes gigantes são conhecidas como Colossos de Menon. Foto T.Abritta, 1990.

          Estas estátuas foram descritas por Heródoto, Estrabão e muitos outros ilustres viajantes.  Na antiguidade, uma das estátuas emitia um triste lamento ao amanhecer e ao anoitecer (devido provavelmente às variações de temperatura em uma das fendas causadas pelos terremotos).  Mas tal lamento foi atribuído a uma saudação à deusa Aurora – a deusa dos dedos rosa, que abre a cortina do céu no amanhecer –, mãe de Menon, que obteve a dádiva de escutar a voz de seu filho, Rei do Egito, desaparecido na guerra de Troia.
          Depois de obras de restauração feitas pelo Imperador Romano Septimo Severo (193-211 DC.), os gemidos nunca mais foram escutados.

          Em certo sentido a fotografia funciona como um duplo do fotografado, um singelo Kolossós em papel.  Por outro lado, a sua deterioração física lembra-nos não da transitoriedade da vida como da fragilidade e constante transformação do mundo material.  Uma foto antiga, mesmo deteriorada e de baixa qualidade em sua concepção, sempre será considerada uma preciosidade ou obra de arte, pois é vista como um registro arqueológico, uma ruína que sobreviveu a uma deterioração temporal.  Esta ponte entre História, Arqueologia e Fotografia fica mais clara comparando-se a visão mais técnica de um arqueólogo com o olhar poético de uma escritora.

“Os resultados mais correntes da conduta humana, os dados arqueológicos mais vulgares, podem chamar-se artefatos, coisas feitas ou desfeitas por uma deliberada ação humana”, Gordon Childe.

“As fotos são, é claro, artefatos. Mas seu apelo reside em também parecerem, em um mundo atulhado de relíquias fotográficas, ter o status de objetos encontrados – lascas fortuitas do mundo, Susan Sontag.